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Língua Portuguesa·22 de outubro de 2015

Quem estuda, não passa!

Uma frase motivacional mal pontuada rende a aula: vírgula não tem relação com pausa para respirar — tem com análise sintática.

Por Professor Carlos André
Estudante fazendo anotações

Como educador, confesso que vejo como avançadas as pesquisas em educação, quando indicam a necessidade de multidisciplinaridade, ou seja, da interação entre objetos e conhecimentos diferentes. No Exame Nacional do Ensino Médio, isso fica muito evidente, no momento em que se verifica, em único item, a necessidade de que o participante do Exame demonstre a percepção de língua e de arte; de química e de biologia; de geografia e de história, ao mesmo tempo.

Ora, isso é extraordinário, mas (...), mas não se pode exagerar...; não se podem misturar, de maneira incoerente, as coisas...; não se pode ir ao quiproquó..., ao “samba do crioulo doido”...!

Acalme-se, eu já explico:

Na última semana, eu estava em Brasília e, antes de entrar à sala de aula, um aluno mostrou-me uma tabela de pontuação em que se liam algumas “técnicas de memorização”, para aprender os benditos sinais. Na tabela, havia ‘dicas’ ligadas à relação entre pausa para respiração e (acredite!!!) vírgula!

Então, esperançoso, ele me perguntou: “Então, professor Carlos André! O senhor indica?”

Antes de eu fazer meus “pitacos linguísticos”, eu vi — ao final do material — a seguinte frase motivadora:

QUEM ESTUDA, PASSA

Pensei: “Nem pensar! Não indico de forma qualquer!”

Leitor, o sistema de pontuação consiste em uma lógica de natureza sintática; de estruturação, altamente ligada às funções das palavras nas frases (sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial etc.). NÃO HÁ, PORTANTO, RELAÇÃO COM PAUSA PARA RESPIRAR!! NÃO HÁ RELAÇÃO COM BIOLOGIA!! NÃO HÁ MULTIDISCIPLINA AQUI!!!

Saber pontuação e aplicá-la em textos literais pressupõe tão somente estudar gramática normativa; conhecer análise sintática!

Quando se verificam as vírgulas em uma sentença como “Comprei bolo, leite, pão”, os sinais de pontuação não têm relação com pausas, mas sim, com a relação entre os núcleos do objeto direto: “bolo”, “leite” e “pão”. A vírgula separa termos de mesma função sintática.

É claro que as colocações acima não explicariam a pontuação no fragmento do poema “EU-ETIQUETA”, de Carlos Drummond de Andrade, pois a vírgula e o ponto não estão no plano meramente sintático: são símbolos!

Note:

Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente

Carlos Drummond de Andrade, “Eu, etiqueta”

Não queira, portanto, explicar, apenas por análise sintática, a pontuação de textos de Drummond, Saramago, Casimiro de Brito e Serguilha.

Porém...

Em se tratando dos textos “mortais”, dos que são escritos para a leitura de “dia a dia”, como é o caso da dica “QUEM ESTUDA, PASSA”, a vírgula possui natureza sintática SIM, e foi muito mal-empregada, pois, em gramática normativa, não se recomenda a separação do SUJEITO (QUEM ESTUDA) do PREDICADO (PASSA).

Assim, aquele que entende que a vírgula é usada, nesse caso, para dar ênfase; por questão estilística etc, etc, etc, tenha certeza de algo:

QUEM ESTUDA, NÃO PASSA, mas QUEM ESTUDA PASSA.

Até a próxima!

Avante!

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