Falta de decoro nunca pôde! Agora pode?
De “O bicho”, de Manuel Bandeira, ao acento diferencial: por que “pôde” tem acento e “pode” não — o único par que sobreviveu a 1971.
Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem
— Manuel Bandeira, “O bicho”
Leitor,
Depois de apresentar a você essa obra prima do recifense Manuel Bandeira (aliás, acredito piamente que haja algo de diferente na “água do Recife”, pois, pelo amor do Frevo, quanta gente boa há naquele pedaço de Brasil!) iniciarei nossa conversa de hoje, falando de dois bichos: do primeiro, que é vítima da zoomorfização nas relações humanas; e do segundo, o algoz da sociedade, o (des)líder da coisa aparentemente pública.
Bandeira teria escrito o poema acima, em 1947, dois dias após o Natal, depois da fartura e do consequente desperdício advindos da visão consumista da sociedade da época, cujos padrões continuam vivíssimos e catalisados hodiernamente. Ao analisarmos as duas primeiras estrofes, inferimos a refinada sugestão do silêncio da rua vazia, que é a morada de um ser humano com fome dos valores de alteridade que fazem do homem o homem. Já a ação de engolir com voracidade pode-nos levar a pensar na falta de escolha a que o homem moderno é submetido, em razão da coisificação de nós mesmos.
Agora, como dizem os franceses: “Voilà”! Eis a quarta e a quinta estrofes! Elas nos sugerem o espanto (no caso o proporcionador da arte) sobre a animalização do homem! Bem, trata-se do mesmo espanto, porém com “um quê a mais de pecado”, que nós brasileiros tivemos ao ver as cenas deploráveis da rinha (a palavra é essa mesma) entre dois “despotados” na última semana, no Congresso Nacional.
Certamente, os dois nunca foram ao dicionário para saber qualquer dos semas, qualquer dos significados da palavra “decoro”, que – aliás – dá nome à comissão em que ocorreu a “imundície” entre os “detritos” dos desvios de dinheiro.
Leitor,
A palavra “decoro” contém, em seu significante, alguns dos traços semânticos mais nobres da Língua Portuguesa! Essa palavra é a insígnia da pós-escuridão, do fim do nefasto modelo de convivência em que os seres humanos não se comunicavam: impunham, pela força, seus caprichos. “Decoro” é correção moral, é compostura, é decência, é dignidade, é honradez, é brio, ou seja, é tudo aquilo que não se tem apreendido do comportamento de alguns desses seres estranhos que hoje habitam a “Casa de Ulisses”, aquele que, numa “tragédia grega”, foi consumido pelo mar.
Salvem o decoro! Salvem a memória do Ulisses da Redemocratização!
E por falar nisso, o leitor deve estar aí com a “pulga na cueca”, pensando no título desse artigo, não é?
Por que um “pôde” tem acento, e outro, não? Isso pode?
Pode! Pelo menos é o que diz a ortografia da “Última Flor do Lácio”!
Leitor,
Até 1972 (dia 2 de janeiro, para eu ser pragmático), todos os vocábulos homógrafos e heterófonos da Língua Portuguesa eram acentuados!
Acalme-se, leitor! Já explico:
Até 72, os vocábulos que tinham grafia idêntica (homógrafos) e fonemas diferentes (heterófonos) recebiam acento! Era o caso de “govêrno” que tinha acento para se diferenciar de “governo”; de “côrte” para se diferenciar de “corte”; de “sêde” para se diferenciar de “sede”; de “aquêle” para se diferenciar de “aquele”... Agora você tomou um susto, não foi? “Como assim”, você deve ter pensado! “Aquele”? Sim, leitor! “Aquele” é presente do indicativo do verbo “aquelar”!
Fique calmo! Fique calmo! Vou explicar!
“Aquelar” significa qualquer coisa, qualquer coisa mesmo! Seria como o verbo “coisar”, muito usado hoje em dia! Um exemplo seria assim: “ela aquela o café da manhã para mim”. Isso seria traduzido como “ela arruma o café da manhã para mim”.
Vivendo e aprendendo, não é?
Pois bem, a única palavra homógrafa e heterófona que a Lei 5.765/71 (ordenamento jurídico que entrou em vigor em 72 e que causou esse alvoroço gráfico todo) ‘salvou’ da perda do acento diferencial foi pôde (passado do verbo ‘poder’) para se diferenciar de pode (presente do mesmo verbo).
Assim, ela pôde fazer isso (passado), mas não pode mais (presente).
Percebeu, leitor?
Bem, falta de decoro NUNCA PÔDE! E, nos dias de hoje, também NÃO PODE.
Até a próxima!
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