No Natal, livrai-nos do mas!
De Renato Russo ao Pai-Nosso: por que a conjunção “mas” marca quebra de expectativa — e por que, na oração, o ideal seria um “e”.
Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse?
— Renato Russo
Leitor,
Um dia, um dos Russos mais brasileiros do Brasil fez essa pergunta que, confesso, não sei responder! O dêitico pronominal “esse” é muito mais do que um demonstrativo: é uma incógnita; é uma dessas lacunas para as quais – paradoxalmente – temos a perversa resposta e, ao mesmo tempo, a esperança no País do Futuro. Depois, porém, lemos o Hino Nacional e, de forma resignada, aquele paradoxo é levado a cabo: fica tão somente (nova grafia: sem hífen) a constatação de que o Gigante é mesmo um adormecido.
No poema, o Russo (que não é parente do Putin da KGB) escreve também:
Nas favelas, no Senado Sujeira pra todo lado Ninguém respeita a Constituição Mas todos acreditam no futuro da nação
Nessa aula de ciência política e de bom-senso da legião de garotos do bem, é necessário que você possa ter muita (repito) muita atenção às relações lógicas estabelecidas pelo marcador argumentativo “mas”. Existe, na coerência de raciocínio do ser humano, a possibilidade do que se chama de “quebra de expectativa”.
Acalme-se! Já explico:
Imagine que você compre um automóvel! Bem, você espera recebê-lo, não é? Ninguém pode prever que um cidadão, nesse contexto citado, não receba o carro, certo? Pois é! Caso ocorra o improvável e o cidadão NÃO receba mesmo o automóvel, tratar-se-á de uma quebra de expectativa, de algo que não se pode prever na lógica das relações humanas! A esse tipo de relação ideológica dá-se o nome de “adversidade”, palavra que é irmã do signo “adversário”. Nas línguas em geral, há conectivos (conjunções) que materializam essa ideia: em inglês, “but”; em francês, “mais”; em espanhol, “pero”! Na “Última Flor do Lácio”, são várias as conjunções que indicam essa lógica: “mas”, “porém”, “contudo”, “entretanto” etc.
Assim, quando Renato diz que “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”, sugere, por meio de refinada ironia, a absoluta ilógica entre o desrespeito à Carta Magna de 88 e a ‘nobreza’ do desejo de prosperidade dos que vivem no Brasil Brasileiro. Ora, como é que alguém não respeita os princípios constitucionais e, ainda assim, tem a pachorra de apresentar-se como paladino da República?
Bem, o pior é que esse tipo de incoerência continua diuturna do Brasil (acho que agora mais do que nunca)!
Então, leitor, percebeu?
Quando há quebra de expectativa entre ideias representadas por orações, uma das melhores opções é a de marcar o “entrelugar” das ideias com uma conjunção adversativa.
Podemos, então, combinar o seguinte, leitor: quando houver, em seu texto, ideia adversativa, use um marcador adversativo! Aí suas ideias vão ficar claras e tudo dará certo...
Mas... mas, devagar com o andor, leitor!
A lógica aqui do lado esquerdo do Atlântico não é tão simples assim! Do lado de cá, a coisa funciona mais ou menos assim: conectivos como “e”, que costumam indicar ideia de adição, de sequência lógica, são utilizados também como adversativos: “Estudou, e não passou” (o ideal aí seria o conectivo “mas”); ou mesmo em conectivos como “ou”, que costumam indicar ideia de exclusão, de alternância, são utilizados como aditivos: “Poderá se aposentar quem completar X anos de idade, ou Y anos de contribuição”. Pasmem! Nesse caso, o entendimento majoritário do Supremo Tribunal Federal tem sido no sentido de que o “ou” aí não é excludente; ao contrário, é indicador de sequência lógica aditiva.
Notou?
É preciso fazer interpretação baseada não apenas nos sentidos que os dicionários dão aos conectivos, mas sim, ao contexto das relações entre as frases.
Bem, se, em relação à política, a coisa já é difícil, imaginemos quanto à religião?
Leitor,
Que atire o primeiro dicionário aquele que nunca ficou com a pulga atrás da orelha porque leu, pela milésima vez (porém jamais entendeu), a presença do marcador “mas” ao final da reza conhecida como “Pai-Nosso”?
Não nos deixeis cair em tentação, MAS livrai-nos do mal
Quem já parou para pensar no assunto, já deve ter se descabelado, tentando entender a pretensa relação de quebra de expectativa entre o fato de que o Pai-Nosso (interlocutor da oração) deva impedir que caiamos “em tentação” e, da mesma sorte, que não sejamos consumidos pelo mal. Ora, não teriam essas ações natureza sequencial aditiva, de reforço? Além de nos livrar da tentação, não rogamos ao Pai que nos livre do mal? Parece que sim, não é?
Já adianto a vocês que alguns linguistas entendem esse bendito “mas” (literalmente, nesse caso) como advérbio de corroboração ou como palavra denotativa que indica reforço etc, etc, etc.
Mas...
Mas a verdade é que o ideal aí seria um santo (quase literal) “e”!
Não nos deixeis cair em tentação E livrai-nos do mal
Assustado, leitor?
Então, em verdade vos digo: “Tenha fé!! Estamos em tempo do nascimento de Cristo; em tempo de libertação de preconceitos, linguísticos, inclusive!”
Assim, no Natal, livrai-nos do mas!
Até a próxima!
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