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Língua Portuguesa·10 de dezembro de 2015

Que se emudeçam as pessoas, não as palavras!

Drummond, uma apresentação de balé e o Acordo Ortográfico: o que muda (e o que não muda) para o brasileiro com as consoantes mudas.

Por Professor Carlos André
Livro aberto sobre uma mesa

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. (...) Chega mais perto Contempla as palavras

Carlos Drummond de Andrade, “Procura da poesia”

Caro leitor,

Começo o texto de hoje com o apelo ao emudecimento da coletividade contemporânea; com a apologia ao fim da “tagarelice” oca dos que falam, mas que somente produzem ruídos; com o grito silencioso de quem quer contemplar o que só pode ser contemplado por meio da ausência de barulho.

O excerto de poema acima chama-se “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade, e contém toda a densidade e a complexidade que envolve o encontro do homem com a arte. O poeta — mineira e universalmente — instiga a contemplação silenciosa do invisível. Note isso em palavras ‘surdas-mudas’ como “surdamente”, “calma”, “frescura”, “mudos”, e em expressões como “não há desespero” etc. A verdade, leitor, é que Drummond já antecipa uma das maiores dificuldades por que passa o ser humano hodierno: a dificuldade de conviver com o silêncio; com o silêncio necessário para entender o verdadeiro “estado das coisas”; com esse silêncio de que nos fala o sociólogo e filósofo francês Guy Debord, quando diz que a sociedade contemporânea “diz, mas nada diz”!

Leitor, pude comprovar, na última semana, a necessidade de percepção dessas “teorias” apresentadas acima. Estive na apresentação de balé de minha filha, e fiquei perplexo com os constantes gritos dirigidos ao palco, os quais vinham da “arquibancada tagarela”! Saí de lá com a certeza de que não houve a apreciação à arte; de que não houve a contemplação necessária para se entender o que aquelas “grandes pequenas artistas” queriam nos passar: o belo artístico.

A apresentação foi extraordinária, mas o comportamento de alguns da plateia... uma pena! Uma lástima!!

O leitor, no entanto, perguntar-me-ia, insistentemente, como o faz toda semana, “mas o que isso tem a ver com a ‘líng..’”. Antes que você termine, eu já respondo, desta vez, mais silenciosamente: “tudo”!

Leitor,

O Acordo Ortográfico, que entrará em vigor no próximo dia 1º de janeiro de 2016, eliminará o uso de algumas CONSOANTES MUDAS em alguns vocábulos como “facto”, que será grafada “fato”; “acto”, que será grafada “ato”; “director”, que será grafado “diretor” etc.

Há, ainda, aqueles vocábulos em que o uso da consoante será facultativo, como é o caso de “corrupção”, que poderá ser grafado “corrução”; de “recepção”, que poderá ser grafado “receção”; de “aspecto”, que poderá ser “aspeto”; de “secção”, que poderá ser “seção” etc.

O leitor deve ter se contorcido aí na cadeira, pensando que já não sabe mais escrever; que vai desistir da Língua Portuguesa; que vai se mudar para a Austrália para falar inglês com os australianos, e conviver com cangurus! Ah! Detalhe: que ainda vai mandar queimar tudo quanto é livro que fale sobre Camões e Machado de Assis, e mandar para a (p...), ou melhor, para a Polônia todos os livros de poema de Bilac e de Pessoa!

Acalme-se, leitor!

Os casos em que houve eliminação das consoantes mudas não nos alcançam aqui no Brasil. Nós já não escrevemos “acto”, “facto” e “director” desde o início do século passado! Para nós brasileiros, muda nada: continuamos a escrever “ato”, “fato” e “diretor”. Para os nossos primos portugueses, porém, mudança drástica!!

Quanto aos casos facultativos citados, também não há mudança!

Você diria: “Como assim? Não há mudança? Quem escreve ‘corrução’ e ‘receção’?”

A questão não é “quem escreve?”, mas sim, a de que esses vocábulos já se encontram nos principais dicionários da Língua Portuguesa há bastante tempo, com tal opção de grafia, sem as consoantes mudas! É claro que o mais recomendável aqui para nós brasileiros é continuar escrevendo “corrupção”, “recepção” e “aspecto”, por uma razão simples: nós pronunciamos essas consoantes “solteirinhas”! Elas, portanto, não são mudas para nós! Ocorre, porém, que estão igualmente corretas as grafias “corrução”, “receção” e “aspeto”! No caso de “seção”, há uma tendência maior de se escrever sem o outro “c”!

Por fim, não precisaria nem dizer o porquê de, em palavras como “pacto” e “apto”, as consoantes “c” e “p” não poderem ser “emudecidas” e retiradas aqui na “Terra do Samba”!

Imagine o “Pato de Varsóvia” ou a notícia de que “alguém está ato para conseguir o emprego”?? Não dá, não é?

Percebeu, leitor?

A verdade é que a sociedade contemporânea não consegue conviver bem com o silêncio “nas” e “das” palavras!

Assim, que se emudeçam as pessoas, não as palavras.

Até a próxima!

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