Que se emudeçam as pessoas, não as palavras!
Drummond, uma apresentação de balé e o Acordo Ortográfico: o que muda (e o que não muda) para o brasileiro com as consoantes mudas.
Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. (...) Chega mais perto Contempla as palavras
— Carlos Drummond de Andrade, “Procura da poesia”
Caro leitor,
Começo o texto de hoje com o apelo ao emudecimento da coletividade contemporânea; com a apologia ao fim da “tagarelice” oca dos que falam, mas que somente produzem ruídos; com o grito silencioso de quem quer contemplar o que só pode ser contemplado por meio da ausência de barulho.
O excerto de poema acima chama-se “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade, e contém toda a densidade e a complexidade que envolve o encontro do homem com a arte. O poeta — mineira e universalmente — instiga a contemplação silenciosa do invisível. Note isso em palavras ‘surdas-mudas’ como “surdamente”, “calma”, “frescura”, “mudos”, e em expressões como “não há desespero” etc. A verdade, leitor, é que Drummond já antecipa uma das maiores dificuldades por que passa o ser humano hodierno: a dificuldade de conviver com o silêncio; com o silêncio necessário para entender o verdadeiro “estado das coisas”; com esse silêncio de que nos fala o sociólogo e filósofo francês Guy Debord, quando diz que a sociedade contemporânea “diz, mas nada diz”!
Leitor, pude comprovar, na última semana, a necessidade de percepção dessas “teorias” apresentadas acima. Estive na apresentação de balé de minha filha, e fiquei perplexo com os constantes gritos dirigidos ao palco, os quais vinham da “arquibancada tagarela”! Saí de lá com a certeza de que não houve a apreciação à arte; de que não houve a contemplação necessária para se entender o que aquelas “grandes pequenas artistas” queriam nos passar: o belo artístico.
A apresentação foi extraordinária, mas o comportamento de alguns da plateia... uma pena! Uma lástima!!
O leitor, no entanto, perguntar-me-ia, insistentemente, como o faz toda semana, “mas o que isso tem a ver com a ‘líng..’”. Antes que você termine, eu já respondo, desta vez, mais silenciosamente: “tudo”!
Leitor,
O Acordo Ortográfico, que entrará em vigor no próximo dia 1º de janeiro de 2016, eliminará o uso de algumas CONSOANTES MUDAS em alguns vocábulos como “facto”, que será grafada “fato”; “acto”, que será grafada “ato”; “director”, que será grafado “diretor” etc.
Há, ainda, aqueles vocábulos em que o uso da consoante será facultativo, como é o caso de “corrupção”, que poderá ser grafado “corrução”; de “recepção”, que poderá ser grafado “receção”; de “aspecto”, que poderá ser “aspeto”; de “secção”, que poderá ser “seção” etc.
O leitor deve ter se contorcido aí na cadeira, pensando que já não sabe mais escrever; que vai desistir da Língua Portuguesa; que vai se mudar para a Austrália para falar inglês com os australianos, e conviver com cangurus! Ah! Detalhe: que ainda vai mandar queimar tudo quanto é livro que fale sobre Camões e Machado de Assis, e mandar para a (p...), ou melhor, para a Polônia todos os livros de poema de Bilac e de Pessoa!
Acalme-se, leitor!
Os casos em que houve eliminação das consoantes mudas não nos alcançam aqui no Brasil. Nós já não escrevemos “acto”, “facto” e “director” desde o início do século passado! Para nós brasileiros, muda nada: continuamos a escrever “ato”, “fato” e “diretor”. Para os nossos primos portugueses, porém, mudança drástica!!
Quanto aos casos facultativos citados, também não há mudança!
Você diria: “Como assim? Não há mudança? Quem escreve ‘corrução’ e ‘receção’?”
A questão não é “quem escreve?”, mas sim, a de que esses vocábulos já se encontram nos principais dicionários da Língua Portuguesa há bastante tempo, com tal opção de grafia, sem as consoantes mudas! É claro que o mais recomendável aqui para nós brasileiros é continuar escrevendo “corrupção”, “recepção” e “aspecto”, por uma razão simples: nós pronunciamos essas consoantes “solteirinhas”! Elas, portanto, não são mudas para nós! Ocorre, porém, que estão igualmente corretas as grafias “corrução”, “receção” e “aspeto”! No caso de “seção”, há uma tendência maior de se escrever sem o outro “c”!
Por fim, não precisaria nem dizer o porquê de, em palavras como “pacto” e “apto”, as consoantes “c” e “p” não poderem ser “emudecidas” e retiradas aqui na “Terra do Samba”!
Imagine o “Pato de Varsóvia” ou a notícia de que “alguém está ato para conseguir o emprego”?? Não dá, não é?
Percebeu, leitor?
A verdade é que a sociedade contemporânea não consegue conviver bem com o silêncio “nas” e “das” palavras!
Assim, que se emudeçam as pessoas, não as palavras.
Até a próxima!
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