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Língua Portuguesa·12 de novembro de 2015

O porquê dos porquês!

De Freud a Pondé: a lógica por trás dos quatro porquês, sem as tabelinhas mágicas que desrespeitam a inteligência do leitor.

Por Professor Carlos André
Ponto de interrogação em um quadro

Freud explica!

Certamente o leitor já está muito acostumado a ouvir essa frase que ecoa, desde a segunda metade do século XX até hoje, na civilização contemporânea, também chamada de “sociedade do espetáculo”, pelo sociólogo francês Guy Debord. Sem qualquer pretensão de arrefecimento do importante pensamento freudiano, eu faria uma releitura:

Pondé explica!

Acalme-se, leitor, que eu também tentarei explicar:

Luiz Felipe Pondé faz parte de uma nova geração de filósofos que estuda a chamada contemporaneidade. Entre os vários livros que escreveu, falarei deste: “A Era do Ressentimento”. Em um dos capítulos, Pondé fala sobre o “Complexo de Salieri”, contextualizado no filme “Amadeus”. O filósofo fala no livro sobre a dificuldade que a sociedade contemporânea possui de receber críticas e orientações advindas de padrões (sejam comportamentais, ou de linguagem). Bem, caso o leitor tenha a curiosidade de ler o capítulo do livro, é muito importante que interprete Salieri não como um indivíduo; não como alguém, mas como uma lógica comportamental.

Pois bem, mas o leitor deve estar pensando: Que isso tem a ver (e não “haver” como muito se vê escrito) com gramática, com o nosso português do cada dia?

Tudo! Eu responderia!

Um colega professor confidenciou-me que fez uma orientação a um sindicato, sobre o uso dos porquês, em razão de uma frase como esta: “SAIBA PORQUE (SIC) VOCÊ TEM DIREITO”. Segundo o colega, ele disse aos responsáveis pelo sindicato que o uso do porquê estaria equivocado; deu explicações etc, mas (...), mas nada. Nada! Disseram-lhe simplesmente que o que importava era a comunicação; que ele era muito chato; que estava impondo o pensamento dele; que a forma de escrever é de cada um... (ou seja, essas coisas que causam sono; muito, muito sono).

Viu, leitor? Pondé explica!

Bem, sem querer fazer qualquer ditadura da escrita, ou qualquer orientação que possa arrepiar algum “ressentido de plantão”, mostrarei agora qual é a lógica do uso dos porquês, sem as tabelinhas mágicas que desrespeitam a inteligência e nos fazem menos humanos, segundo o pensamento de Nietzsche:

Vamos lá:

O porque (chamado por muitos de “junto e sem acento”) nada é mais do que uma conjunção indicativa de causa ou de explicação! Bom lembrar que conjunção costuma ligar orações.

Exemplo: “Não fui, PORQUE não quis”. Notou, leitor? A primeira oração é “não fui”; a segunda, “não quis”. Entre elas, há uma relação de causa e de consequência, e, portanto, foi colocada a conjunção.

O porquê (chamado por muitos de “junto e com acento”) nada mais é do que um substantivo, que, por sua natureza, costuma vir acompanhado de um artigo “o” (no singular ou no plural).

Exemplo: “Não sei O PORQUÊ de João ter saído”. Notou? Basta colocar o artigo antes da palavra “porquê” que ela é grafada assim. Detalhe: o acento é diferencial, e o sentido da palavra é razão, motivo etc.

Viu que não há como confundir os dois porquês? São bem diferentes, não são?

Vamos agora aos quês! Sim, aos quês acompanhados da preposição por (chamados por muitos de “separados, com ou sem acento”).

O por que (chamado de “separado e sem acento”) consiste em uma expressão que tenha um pronome interrogativo (que, claro, serve para interrogar) ou um pronome relativo (que serve para se referir ao termo antecedente).

Exemplos: “POR QUE você saiu?”. Note que se trata de uma interrogação indicada pelo que, pronome interrogativo, portanto. A preposição por exprime a ideia de causa.

Percebeu?

De outro modo, em: “Não direi o motivo POR QUE você foi embora”, há algo completamente diferente: o que não é mais um pronome de interrogação, mas sim, um pronome relativo (que retoma) a palavra motivo. A preposição por indica a causa.

Notou? A diferença é muito grande!

Algo muito importante a ser esclarecido também é que, na maioria das frases, as palavras motivo ou razão estão implícitas, mas, mesmo assim, são retomadas pelo pronome relativo que.

Exemplo: “Não direi POR QUE sairei”. Note que as palavras motivo ou razão estão implícitas antes da preposição por. Ora! Não importa: o pronome que as retomará assim mesmo!

Por fim, o por quê (chamado de “separado com acento”) possui a mesma função do antecedente: expressão que tenha um pronome interrogativo ou um pronome relativo. Ocorre, porém, com a seguinte diferença: o pronome que é tônico, pois ele substitui toda uma frase ou toda uma ideia que lhe viria posposta (colocada depois dele).

Exemplo: “Você saiu. POR QUÊ?”. Certamente, o leitor percebeu que, depois do pronome que, viria a repetição da expressão “você saiu”. Seria assim: “Você saiu. Por que você saiu?”. Detalhe: note o leitor que, quando coloquei a expressão, o acento sumiu; escafedeu-se!

Tais características ocorrem também com o pronome relativo!

Exemplo: “SAIBA POR QUÊ!”. Note que aqui também há uma expressão implícita após o pronome relativo que. Note ainda que o pronome que retoma as palavras (também implícitas) motivo ou razão. Reescrita a frase, sem qualquer implícito, ela seria assim: “SAIBA O MOTIVO POR QUE VOCÊ TEM DIREITO”.

Percebeu que entender o uso dos porquês tem como pressupostos raciocínio, dedicação e humildade?

Ufa! É isso, leitor!

Então, não importa se é Freud, se é Pondé ou se é Carlos André! O que realmente importa é que se explique!

Até a próxima!

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