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Língua Portuguesa·12 de dezembro de 2015

Eu? Eu não!!

Uma notificação do Facebook, uma esposa desconfiada e o pronome possessivo “seu”: a ambiguidade que só existe no português do Brasil.

Por Professor Carlos André
Pessoa usando rede social no celular

E agora, Carlos André? A acusação chegou, O Facebook denunciou, A realidade sumiu...

Caro leitor,

Inicio a coluna da semana com essa malfazeja paráfrase ao “Poeta do Sentimento do Mundo”, com duas finalidades: a primeira trata-se de demonstrar, com uma pequena pilhéria, por meio de traços sociológicos, o quanto somos reféns da virtualidade da chamada “sociedade do espetáculo”, nas sábias palavras de mestre Mário Vargas Llosa. A segunda, é claro, é falar sobre a “Última Flor do Lácio”, que é — em homenagem a Drummond — aqui será “A Rosa do Povo Brasileiro”!

Bem, outro dia, eu estava no supermercado, e alguém — gozando de um “ar” de absoluta fraternidade e intimidade, daquelas que são dignas de uma convivência diuturna — disse-me: “Olá, amigo Carlos André! Vi que, no último sábado, você estava no lugar X (...); e que, no domingo, no lugar Y (…) E aí!”, continuou ele, “(...) da próxima vez, convide os amigos (...)”

Tive um sentimento de perplexidade, e confesso que — enquanto ele falava — lembrou-me o pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze, que propõe a “teoria dos rizomas”, raciocínio que prevê as ramificações e a desterritorialização das relações humanas, o que, na sociologia, gera fluxo desordenado nas relações sociais.

Acalme-se, leitor!

Com isso tudo, quero apenas dizer que não me lembrava sequer de conhecer o “íntimo frattelli”, e que — ao mesmo tempo — fiquei apavorado com o quanto ele sabia a meu respeito. Agora, o pior mesmo é quando, nessas redes sociais, alguém acusa você de algo que você não fez!!

Já explico! Já explico!

Minha esposa (essa, por óbvio, não amiga só da virtualidade, mas também — e é claro — da realidade) mandou-me uma foto, um “print” (como alguns gostam de chamar), em que a rede social dizia a ela o seguinte: “Carlos André alterou SEU perfil no facebook”! Irônica que só ela, a Marina me disse: “Uai, Meu Bem, por que você alterou MEU perfil (rsrs)?”.

A verdade, leitor, é que eu, Carlos André, havia alterado o MEU perfil (a MINHA foto)! Mas a Marina recebeu: “Carlos André alterou SEU perfil no facebook”!

E aí, leitor? Pescou o nosso problema linguístico e “conjugal” de hoje?

Sim! É isso mesmo em que você está pensando! Por causa de um danado de um pronome possessivo, fui acusado, pela minha própria mulher, de mudar — sem o consentimento DELA — o perfil DELA, quando — na verdade — alterei foi o MEU!

Mais uma vez, acalme-se, leitor! Já vou esclarecer:

No português do Brasil, o pronome possessivo “seu” tem, ao mesmo tempo, como referente um elemento de terceira pessoa do discurso (o pronome “ela”, por exemplo) e de segunda pessoa do discurso (o pronome “você”, por exemplo).

Sim! O pronome “seu” pode referir-se a “ela” em frases como “Iasmim foi à rua e levou o SEU irmão”! Ora, de quem é o irmão? A resposta é “dela”, de Iasmim, que é a terceira pessoa do discurso, ou seja, de quem se fala.

Já em sentenças linguísticas como “Matheus, VOCÊ falou com SUA irmã?”, o pronome “sua” aqui se refere à segunda pessoa do discurso, a quem se fala, a Matheus, no texto representado pelo pronome “você”!

Antes que você queira “pular da janela”, esclareço que esse quiproquó só existe no português aqui da “Terra de Ary Barroso”, pois nós, falantes da “Flor do Lácio Sambódromo”, escolhemos a forma pronominal “você” (que é de terceira pessoa da gramática) para representar aquele com quem falamos (segunda pessoa do discurso). Por isso, o “seu”, que também é de terceira pessoa da gramática, refere-se também àquele com quem se fala, que representa a segunda do discurso.

Que bagunça, não é?

De outra sorte, nossos irmãos da “Terra de Amália Rodrigues” usam, para representar a segunda pessoa do discurso (aquela com quem se fala) os pronomes “tu”, “teu”, “tua” etc. Assim, a frase direcionada a Matheus, em Portugal, seria: “Matheus, TU falaste com TUA irmã?”.

Bem, a verdade é que o “SUA”, em Portugal, é o nosso “DELE” aqui no Brasil! Assim, quando se diz lá na “Terrinha” que “O LULA PEGOU O SEU DINHEIRO PARA INVESTIMENTOS PESSOAIS”, é fundamental entender que o dinheiro é DO LULA, viu, leitor? É bom lembrar que essa interpretação é lógica lá em Portugal (...)!! Já aqui no Brasil (...)! Aqui no Brasil (...)! Bem, mudemos de assunto: não quero falar sobre isso!!!!

Então, leitor! Para finalizar, eu lhe digo que não entrei na conta de facebook da minha esposa para alterar a SUA foto, não!

Detalhe, a foto é DELA, viu? Não é a SUA!

Até a próxima!

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