Em terra de mais pequeno quem tem menor é rei
Escrito a 10 mil metros de altitude: por que o “mais pequeno” dos portugueses é, do ponto de vista lógico, tão defensável quanto o nosso “menor”.
Já adianto ao leitor que escrevo este texto, à noite, em um voo, a 10 mil metros de altitude, sobre o Oceano Atlântico, e a uma velocidade de 800 km/h. Nessa ‘altura’, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman diria que “a noite é o paraíso maldito dos ‘livres’”, o que, a meu ver — potencializada por toda essa altitude e por toda essa velocidade — catalisaria a verdadeira liberdade de pensamento humano. Nessas situações, nós nos libertamos das amarras tradicionais impostas pela sociedade e começamos a pensar na razão de ser das coisas; no cotejo entre aquilo que se impõe e aquilo que é verossimilhante à lógica humana.
Acalme-se, leitor, não se trata de filosofia notívaga de alta velocidade, resultante de diferença de pressão atmosférica, não!
É que, sem pensar, sem comparar, sem duvidar, nós nos tornamos reféns do conservadorismo (às vezes, tolo) da gramática normativa. Nós nos conformamos com uma “realidade irreal”, conforme nos profetizou um grande intelectual naturalizado brasileiro chamado Otto Maria Carpeaux (aliás, aconselho o leitor a conhecer-lhe a obra).
Pois bem! Veja o leitor que, à vida inteira, nós ouvimos frases como: “Brasileiro fala tudo errado”; “Brasileiro não sabe falar português”, ou seja, todas essas estupidezes (no plural mesmo), que nos geram um certo complexo de inferioridade linguístico crônico.
O caso curioso é que, na última semana, estive em Portugal para fazer conferências na Academia das Ciências de Lisboa, no Instituto Camões e na Ordem dos Advogados Portugueses, e tive a curiosidade de reparar uma peculiaridade dos utentes (como eles gostam de ser chamados) da Língua Portuguesa: nossos irmãos lusitanos falam e escrevem quotidianamente a expressão “mais pequeno”!
Sim! Repito: “Mais pequeno!”
Toda a gente de Portugal diz que o gato é “mais pequeno” que o cão! O leitor deve ter se contorcido na cadeira, não é?! Deve ter pensado: “O correto é ‘menor’, não ‘mais pequeno’”!!!
Achou estranho? Pois é, leitor! Quero convidá-lo a pensar um pouco cá com meus botões!
Vejamos a lógica: o adjetivo “menor” é forma superlativa sintética resultante de acréscimo do sufixo “-or” (que significa ‘mais’) à palavra cuja significação é de ‘pequeno’. ‘Menor’, portanto, significa ‘mais pequeno’. Sim! Assim como ‘exterior’ significa ‘mais para fora’; ‘senhor’ significa mais senil, mais velho; e ‘junior’ significa mais novo (...), ‘menor’ significa o quê? Ora, ‘mais pequeno’!
Ocorre que...
Ocorre que a gramática descritiva (aquela que descreve os fenômenos linguísticos que, posteriormente, passarão a ser considerados como norma padrão de língua, em situações formais) identificou, nos escritores brasileiros, a tendência à utilização da forma “menor” para graus de comparação. A forma ‘mais pequeno’ só seria usada em casos de comparação de algo com ele mesmo. Como exemplo, poder-se-ia citar: “Ele é mais pequeno que mal jogador”!
No mais, a única forma tradicional no Brasil é “menor”! Portanto, “O gato é ‘menor’ (e não ‘mais pequeno’) que o cachorro”! Repito! Na Terra da Bossa Nova, “O gato é ‘menor’ que o cachorro”, diferentemente do que ocorre na Terra do Fado, em que “O gato é mais pequeno que o cachorro”.
Bom é lembrar, por outro lado, que a forma “mais grande”, tanto no Brasil, quanto em Portugal, somente se aceita, para graus comparativos de coisas diferentes, a forma “maior”!
Exemplo: “O cachorro é ‘maior’ que o gato”.
Assim, aqui do alto dos 10 mil metros de altitude, digo-lhes que o nosso ‘menor’ — do ponto de vista lógico — é ‘menor’ do que o ‘mais pequeno’ lusitano.
Porém, tradição linguística é tradição linguística, não é?
Assim, em Terra de Mais Pequeno quem tem Menor é rei!!
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