Direito é direito, mas é bom que seja à greve
Direito DE greve ou direito À greve? A preposição muda quem age e quem sofre a ação — e só uma das duas formas é recomendada.
Que atire o primeiro dicionário aquele que nunca teve dúvida em preposição! Aliás, no Brasil, o “clima de dúvida” passa longe de se ligar apenas à preposição: o País vive sérios problemas de natureza administrativo-financeira, de que decorrem, por exemplo, as famigeradas GREVES. Direito de trabalhadores brasileiros, assegurado pela Democrática Carta de 88, as greves têm sido muito avocadas neste ano, principalmente pelos servidores públicos federais.
Bem, é aí que eu quero chegar!
Nesta semana, li um artigo escrito em um sítio de notícias (bom é lembrar que a grafia é ‘sítio’ mesmo! Evitemos, portanto, o termo ‘site’, pois a palavra já foi aportuguesada), em que um servidor público dizia da importância do direito DE greve, em vez de direito À greve.
Certamente, você deve ter pensado: “Qual a diferença? ‘De greve’ estaria errado?”
Inicialmente, afirmo que é importante; é muito importante afirmar que não se trata aqui de falar em “certo” ou “errado”, pois esses conceitos não mais explicam a complexa relação de comunicação nos textos.
Ocorre, porém, que, na modalidade formal escrita da Língua Portuguesa, não se recomenda — para a frase motivo de nosso texto — DE. Sim! Não se recomenda DE!
Esse “de” que você viu antes de “greve” é reconhecido, nos estudos linguísticos, como “preposição”, que é termo que liga; conecta palavras, com a finalidade de indicar relação ideológica e funcional entre elas. Basta se lembrar de expressões como “casa de mãe”, “amor à pátria”; e “vida para estudos”. Notou? Em todas as expressões citadas, as palavras são ligadas pelas preposições “de”, “a” e “para”.
Pois bem! Em regra, a preposição DE une duas palavras, e sugere que há — entre elas — a noção de “prática de ação” ou de “posse” da segunda em relação à primeira. Quando se diz, por exemplo: “amor DE mãe”, a preposição dá à relação entre as palavras a noção de que “a mãe ama” ou de que “o amor pertence à mãe”.
Já a preposição A estabelece noção de “sofrimento de ação”, o que significa que “amor À mãe” é interpretado como “a mãe é amada”. Assim, a mãe não agiria, mas sim, seria objeto de amor de alguém, que — no caso — é o filho.
Entendeu?
Tudo isso significa que a forma mais adequada ao contexto da reportagem é “direito À greve” (repito: À greve), e não DE greve, pois não é a greve que possui direitos, mas sim, é o servidor que possui direito A ela, e não o contrário.
Percebeu?
Há mais preposição entre o direito e a greve do que sonha a nossa vã percepção.
Até a próxima!
Avante!
Continue lendo
No Natal, livrai-nos do mas!
De Renato Russo ao Pai-Nosso: por que a conjunção “mas” marca quebra de expectativa — e por que, na oração, o ideal seria um “e”.
Ler artigoFalta de decoro nunca pôde! Agora pode?
De “O bicho”, de Manuel Bandeira, ao acento diferencial: por que “pôde” tem acento e “pode” não — o único par que sobreviveu a 1971.
Ler artigo