De rien, nada! Por nada mesmo!
Por que responder “de nada” a um obrigado é um francesismo — e por que, em português, a resposta lógica é “por nada”.
Em verdade vos digo: “Que ninguém duvide da influência que as línguas têm entre si!”. Esse fato, aliás, independe de ultranacionalismos conservadores ou, até mesmo, de paixões de primeira grandeza pelas “aves que aqui gorjeiam” ou pelo “pendão da esperança”!
Isso posto, que me desculpem Gonçalves Dias e Olavo Bilac, mas a aculturação é um processo antropológico e/ou sociológico, o que implica afirmar que costuma ser anterior, ou, ao mesmo tempo, que o linguístico! Desse modo, não se trata (...) (repito) (...) NÃO SE TRATA de simples e racional escolha lexical (de palavras) por parte dos falantes de uma língua, mas sim, de compreensão de que aquilo que falamos é também resultado de relações culturais entre indivíduos e entre povos. Assim, quando uma brasileira, em Taguatinga, no interior do Estado do Tocantins, vai comprar uma roupa íntima e pede um “sutiã”, é preciso entender que há aí “um quê de pecado” (ops!), “um quê de Edith Piaf” nesse gesto!
Compreendeu?
Do ponto de vista linguístico, essa história de globalização é mais antiga que “andar pra frente”! Uma língua, por vezes, impõe-se, ou mesmo sobrepõe-se à outra!! “É assim que caminha a humanidade”, ‘lulussantomente’ falando, não é?
Mas.... (mil vezes), mas...
É importante! É muito importante que, passados os colonialismos linguísticos e os complexos de exploração, façamos aqui uma reorganização das ideias e nos assumamos como verdadeiros protagonistas da “Última Flor do Tejo ou do São Francisco!”.
Senão, vejamos:
É muito comum, no dia a dia, em Portugal ou no Brasil, que os falantes retribuam um agradecimento “obrigado” com a forma “de nada”! Isso, porém, é lógico, do ponto de vista da regência; das relações morfossintáticas? Enfim, isso é correto?
Inicialmente, devo ratificar — como faço em todos os meus artigos em O Popular — que não se trata do que é certo ou errado, mas sim, adequado ao que é denominado “padrão formal da Língua Portuguesa”.
Ademais, informo que o termo “obrigado”, segundo o filólogo Aurélio Buarque de Holanda, é o particípio do verbo “obrigar”. Isso mesmo! Assim como o particípio do verbo “comprar” é “comprado”; do verbo “beijar” é “beijado”; do verbo “obrigar” é “obrigado”!
Você me perguntaria: “Então esse agradecimento não teria um caráter pejorativo? Ser obrigado a alguém...?!?!”
A resposta é “sim” e “não”!
Originalmente, o sentido da expressão era o de “obrigação” mesmo! Funcionava mais ou menos assim:
Quando se fazia um favor a alguém (algo que não era muito comum nas sociedades até o século XVIII, até pelos regimes políticos europeus da época), dizia-se a quem tinha feito o favor:
A partir de agora, ‘eu sou obrigado a você (ou a vós)’!
Em francês, havia um outro vocábulo de igual teor, que era “merci”, o qual significa “à mercê de”, “ao capricho de”, “à subordinação de” etc.
Os franceses diziam, portanto:
A partir de agora, ‘eu estou à mercê de vós (pronome mais usado em francês)’
Depois de certo tempo, porém, o sentimento de “obrigação” foi diminuindo, em razão das novas relações sociais, pois surgiram os Estados Democráticos de Direito. Então, as respostas ao “obrigado” e ao “merci” passaram a ser politicamente mais corretas:
Em português: “Você não é obrigado a mim ‘por nada’”; em francês, “Vós não estais à mercê ‘de nada’”! Bom é lembrar que, em francês, “de nada” pode ser traduzido para “de rien”!
Percebeu?
Quando falamos “por nada”, e eles (os franceses) falam “de rien”, obedecemos, por intuição, a um sistema sintático de regência das palavras “obrigado” (obrigado “por” nada) e “merci” (merci “de” ‘rien’, ou seja, à mercê “de” nada)!
Notou?
Há uma contaminação linguística, uma influência da sintaxe da Gália na sintaxe lusitana, quando respondemos “de nada”. O ideal, em português, por questões de natureza sintática, é “por nada”! Repito: “por nada”.
Por fim, mesmo reconhecendo a importância das “Terras de Napoleão” para a nossa cultura, recomendo, tanto na “Flor do Lácio de Pessoa”, quanto na “de Drummond”, que você responda: “por nada”!
Sobre o tal do “obrigado eu”, muito falado hoje em dia, e sobre o “obrigado a você”, prometo que escreverei em um dos próximos artigos!
Então, “Au revoir!” (Ops!), “Até mais”!
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