A má-formação da malformação
Entre o autoengano de Giannetti e as manchetes sobre microcefalia: por que “má-formação” e “malformação” convivem nos dicionários.
Mentimos para nós mesmos o tempo todo: adiantamos o despertador para não perder a hora; fazemos tudo de acordo com as nossas convicções (...) Para nosso bem ou nossa ruína, o autoengano permeia grande parte das opções e julgamentos que fazemos.
— Eduardo Giannetti, “O Autoengano”
Leitor, a passagem acima é um “banho de água fria” para o politicamente correto, não é? Pois é! Trata-se de um excerto do livro O Autoengano, escrito pelo sociólogo brasileiro Eduardo Giannetti. Nessa obra, Giannetti demonstra a lógica do indivíduo contemporâneo de enganar-se o tempo inteiro; de acreditar em coisas que ele, como animal racional, sabe que não têm relação ou verossimilhança com a realidade.
Lembrou-me agora outro texto escrito pelo cineasta Arnaldo Jabor, quando ele diz sobre o nosso “autoengano” de tentar proteger a natureza em razão de ela estar ameaçada. “Ora, quem está ameaçado somos nós: a natureza se reinventa! O ser humano é que corre sério perigo de extinção”, diz ele.
Bem, nas últimas duas semanas, ficamos estarrecidos com a quantidade de casos de microcefalia detectados na Região Nordeste do Brasil (no Centro-Oeste, até o momento em que escrevia este texto, foi detectado um caso no Estado de Goiás!!). Suspeita-se que se trata de um vírus que é transmitido às mulheres grávidas por meio do mosquito “Aedes Aegypti”, o mesmo transmissor do vírus da dengue.
Algumas manchetes nos jornais estampavam o seguinte sobre o assunto:
Casos de microcefalia geram malformação do cérebro dos bebês
O leitor deve estar se perguntando: “Pipocas! Que isso tem a ver com nossa coluna semanal sobre a Última Flor do Lácio?” Eu, mais uma vez, direi: Tudo!!
Todos nós sabemos que uma epidemia como essa é resultante ou é catalisada pela falta de lógica harmônica — nas palavras de Giannetti — entre ser humano e natureza! O problema é que essa falta de lógica não é apenas no plano da sustentabilidade ambiental, não! Nosso autoengano também é linguístico!
Acalme-se, leitor, eu já explico:
Certamente, você deve ter percebido a inusitada grafia do termo “malformação”, não é? Certamente, você deve, aí com seus botões, estar a questionar-se: “Mas a grafia correta não seria má-formação?” É aí que eu quero chegar!
O leitor sabe que, na Língua Portuguesa, o adjetivo costuma estar ao lado do substantivo (por isso ele se chama adjetivo, aliás). É o caso de “homem inteligente”, em que “inteligente” é o adjetivo, e “homem” é o substantivo. Em português, o adjetivo “mau”, cujo feminino é “má”, também cumpre esse papel: “mulher má” (má é adjetivo do substantivo “mulher”)! Há, ademais, casos em que as palavras se unem e formam outra, com outro significado, o que chamamos em gramática de composição por justaposição. Isso ocorre com “ar-condicionado”, “sexta-feira” e também com “má-formação”.
Notou, leitor?
O substantivo “má-formação” é formado pelo adjetivo “má” e pelo substantivo “formação”!
Percebeu?
As duas palavras juntas formam outra palavra, outro signo linguístico: “má-formação”. Adianto também que o hífen é necessário, em razão de seguir a regra geral nesse tipo de procedimento de construção de palavras.
Mas...
Mas você leu na manchete que lhe apresentei a palavra “malformação”! E aí? Está certa ou errada a grafia?
Bem, “devagar com o andor”! As expressões “certo” ou “errado” não se encaixariam bem nesse caso. O ideal seria “registrado” ou “não registrado” nos dicionários!
É claro que a palavra “má-formação” está registrada nos dicionários, por todos os motivos que já expliquei! Ocorre que “malformação” também está!! Sim! Também está!! Isso implica dizer que as duas palavras podem ser usadas, segundo os dicionários, em textos de modalidade escrita da língua, como em manchetes de jornais etc.
Qual seria, porém, a justificativa linguística para a formação de “malformação”, já que “mal” teria como uma de suas funções a de advérbio, e tal categoria de palavras não se refere ao substantivo, mas sim, ao verbo?
Bem, para explicar a excêntrica palavrinha, alguns dicionários trazem apenas a relação com a origem da palavra “malformation”, do francês, o que justificaria a contestável grafia. Outros vão mais longe: referem-se (lamentavelmente) a uma possível contaminação linguística entre o substantivo “formação” e a palavra “formado”, particípio do verbo “formar”. Para esses últimos, o “mal” estaria aí ligado a um substantivo “revestido de verbo”!
Bem, certamente agora o leitor entendeu o autoengano, não é?
Como prefiro usar minha autoconsciência, recomendo “má-formação”, em vez de “malformação”! Mas a consciência coletiva fala mais alto, não é?
Até a próxima!
Continue lendo
No Natal, livrai-nos do mas!
De Renato Russo ao Pai-Nosso: por que a conjunção “mas” marca quebra de expectativa — e por que, na oração, o ideal seria um “e”.
Ler artigoFalta de decoro nunca pôde! Agora pode?
De “O bicho”, de Manuel Bandeira, ao acento diferencial: por que “pôde” tem acento e “pode” não — o único par que sobreviveu a 1971.
Ler artigo